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Mostrando postagens de 2022

Recomeço

In-cansavelmente  continuo, é a única forma que conheço para ser quem eu sou,  mesmo sem saber se estou sendo; nunca   fui bom com planos ,  no geral,  é o acaso que guia meus passos  e controla meus dias, minhas noites.    Amei com desespero, ajudei com culpa, acompanhei com medo, vivi na Solidão.   Muito pouco fiz com o pouco que me foi dado e também muito pouco faria com muito .   Gostaria de não existir quando não existisse mais; continuar é correr o risco de que a infinitude de  minhas angústias sejam encontradas pelos escafandristas do verdadeiro Chico.   Gostaria de poder sumir  completamente  logo  após  o fim do meu tempo; se pudesse, na verdade, iria me a pagando aos poucos,  sumindo sor-ra-tei-ra-men-te d as lembranças alheias.   Meu orgulho lustroso, minha vaidade acolhedora, minha despedida inesperada e a raiva carinhosa   - o melhor de mim é avesso.   Observo as ond...

Repentinamente

  ...e de toda sorte: quando  não se queriam;  quando não se buscavam; quando  não se tocavam, quando não se beijavam; dias-anos saudade-é.

Impressões de uma paixão conjugada

não me beijes não me aceites  não me encantes  não me respeites não me ames não me escutes.
abri a janela,  amanheceu  - não era nada.

Jóquei

acordei, já era tarde, troquei o almoço pelo fino trato da aurora; não me desabotoei das lembranças, quis o filme tolo e a cerveja estupidamente gelada; não resisti. Folheando o livro da Campilho retornei:

Um corpo que pesa é um corpo que impõe - II

: e o coração acelera, a respiração falta, o corpo treme ... e Chico repousa suas águas nos pés do outro e acalma seu corpo com o Frio, com O-frio que emana de sua impávida beleza ancestral.    bem depois, na velha manhã que atravessa a também velha cortina eles acordam e no espelho o resultado das ásperas mãos de Chico sobre meu corpo frágil, do áspero beijo-encontro tolamente permitido da alma (minha antes-alma) que agora exaspera de paixão e descontrole; no espelho o resultado-idealizado de um  momento que é sempre-espera.   depois, bem depois dos dias, já cansado de sentir o peso do teu corpo movimentando-se sobre o meu, na segunda manhã após o tempo infinito e já sem cortinas só ele acorda só ele se veste só ele se banha só ele é espelho só ele e eu-só.

Café no fim da tarde

I - Um recital sobre o tempo Não acredito no verso que permanece, o ver-só  é tintura na mão do acaso, é  o termo  que  reverbera transformações para longe da mente que o intuio; não acredito em nenhum tipo de permanência e  sempre espero a dúvida que brota depois da última dúvida sanada.  O tempo passou por mim quando eu voltava da Poesia e me disse  que o texto precisava nascer, mas que eu não tivesse pressa que na pressa se morre  que é preciso aparar as arestas e esperar - até quando... II - Eu só quero o Não O tempo das coisas ressoa no tempo das próprias coisas e aprumam-se em seu limite de infinitas possibilidades frente as nossas marcas infinitas e aos infinitos gozos e as dores que nunca passam  (em suas noites frias e também infinitas). O verso é infenso ao tempo,  sua composição telúrica seu devir-memória é o registro  do que nunca foi, do que  nunca vai;  ele  é o todo desejo deslocado,  imparcia...
 ainda (a)guardo você

Ainda até não mais

Sou  o fruto  ainda verde-maduro da minha exata experiência-inexperiente.   Sou  o passo  ainda trêmulo-firme da minha indivisível vida-morte.

Escolhas e ansiedade

O tempo d e s a c e l e r a,  taquicardia,  desorientação, dores pelo corpo. Respiro, respiro profundamente, não sei onde e nem aonde, não sei nada daquilo que preciso saber.  Descubro-me corpo, descubro-me mente: eu Não sou.
Eu sou aquilo que escapa dos poemas que escrevo . Visto-me de ideias que não tive, de letras não utilizadas e  histórias que não consegui contar.
nos termos do silêncio assumo-me  grito .

Réquem em Libra II

Todo “até logo” carrega em si um bocado de adeus, nunca se sabe até quando - quando,  aliás,  é o limite do tempo repleto de possíveis – seu condicionante  é o material telúrico da própria vida, encarnação da memória do ontem  e de infinitos amanhãs. Hoje,  por sua vez, é tempo sem registro – hoje é a presença sempre ausente, sempre fugidia, é a respiração que tento e não se completa por falta de ar. Ainda sim fantasio no hoje,  ainda sim fantasio  no hoje que sobe a montanha no hoje que queima de amor  no hoje que se veste de surpresa.  Logo, por outro lado, tem a duração de dois meses; logo tem o profundo tempo do “soneto do Amor total”, logo é todo tempo que escapa do quando, é o tempo palpável  do infinito... Infinito,  por outro lado,  é o tempo sem “logo” e ou “quando” – infinito é o tempo da espera-pura. Todo “até logo” carrega  em si  uma vergonhosa crise fantasiada de medo do abandono, de despedida,  d...

Resposta

As coisas que passam redigem - no tempo e no espaço - o resultado da vida que não vivemos que não soubemos escolher. A cada esquina virada, a cada café sortido, a cada promessa não cumprida, apaga-se  imediatamente a possibilidade de um caminho que nunca chegou a ser criado. Não, não somos apenas o resultado daquilo que foi experenciado, mas também  uma porção significativa daquilo que escolhemos deixar para trás. Viver não é tecer o próprio caminho, mas aceitar  o trajeto construído quando se rejeita as estradas que se abrem a cada passo dado  e, por isso,  todo "aprendizado"  é  a  tese acabada de um resultado fortuito que não poderia ter sido outro que nunca poderá ser outro que só poderia ter sido outro se fôssemos outro também. Não existe beleza nas coisas que nunca foram.  Nunca é signo vazio, mundanidade pura. Prefiro  as infinitas possibilidades do tempo que ainda tenho  ao  manso regaço dos tempos de outrora e suas lem...

Uma carta sobre a Espera

O sono que chega não me atravessa e rememorando d e d i l h o em  tons  de  distância a  voz  que sempre esteve.  Eras tu?   O tempo da espera é apenas espera, espera que nunca chega sobre teu corpo tenro sobre tua voz serena sobre teu abraço quente sobre tua boca que...   Meu desejo esposa outro passado e hoje reconheço a única paz possível. Tanto engano,  será que ainda me engano? O tempo da Espera nunca chega,  nunca ...  Temi o corpo rejeitado frente a sua quase-beleza que nunca é quase que sempre é tanta que sempre é transbordo. In completo frases que sempre digo e que você sempre quase-não-escuta,  só olha...  sempre só você olha, sempre só você está.    Incompleto corpo, queria outro, exijo outro – um tanto mais melódico,  mais feminino, mais  e s g u i o. In completo,  observo a tessitura dos silêncios que te compuresam em prisão  e agora  destilam Liberda...

Réquiem em Libra

I Tão pouco... tão pouco de mim ainda resta e, sem a maquiagem, nem me reconheço mais nos vincos que marcam meu rosto. Hoje é um tempo que não passa, hoje foi o ontem que você não veio... é sempre hoje no texto que declamo ou na ideia fixa que me acorda. Antes,  por outro lado,  nunca é um tempo melhor: antes é espaço sem vida antes é projeção  antes nem é... Lembrar é um movimento que me domina, quase involuntário,  discutir em análise é uma saída - se perdoar, talvez - mas nenhum destes caminhos pode ser resposta - resposta prescinde compreensão e, por mais que eu as queira,  todas ela ficaram com você. Impossível, aliás, seria não ficar com você, com você. Tão pouco e todo pouco de mim ainda revivi a trilha que subi agradecido, trilha que  não aprendi a desbravar e nunca mais achei o caminho. Amor cabe em si mesmo, amar não - sou refém de um substantivo.   II Fomos fim antes do começo e planos antes das realizações, invertemos e,  quem sab...

Do acaso

O terço-guia, que descreio, que descremos, é o mesmo verso-acaso que se veste (se investe)  e que contra nós e apesar de nós, em torno nós,  agiliza  o nó-encontro o nó-estrada o nó-espera o nó que desenha nas roupas  e que desenha em teus mundos e que desenha o teu olhar-afago e o teu desejo-abraço. O terço-guia, que descremos, que queremos, é o mesmo verso-plano  que se fez vontade, que se faz vontade, que só aumenta  e  nos enfrenta, nos aquece, nos espera até o raiar do dia da conversa boba do sorriso bobo dos livros divididos. O terço-guia, que queremos, que nos é amigo, é o mesmo  verso-tempo, que  se desdobrou, que se pendulou,  que venceu o duro concreto da descrença, o duro concreto do não, que  agora é todo espera do beijo-encontro  da vida-sonho do repentino amor.   

Da hospitalidade

                                            "a língua materna já é uma língua do outro"                                                                    (DERRIDA, p. 79, 20021)* O corpo, tão refém das estradas e tão passeio de solidão, já não é um corpo - é para além dos espaços, dos textos dos beijos da guerra - um corpo só o é em relação infinita. Nenhuma voz.  De mim  ressoa apenas as histórias gravadas pelo silêncio. Eu sou quem as ouve quem as vive como este poema - que não é somente texto, mas também lembrança e futuro. Meus passos encontram outros passos, outros "Outros" e os acolho para além de mim, sem poder.   Minha estrada jamais foi minha, ela é do outro e do outro que também sou pa...