Não sei, Eu sei. Não me habito, jamais me habitei ou me habitarei. Mantenho-me, esticado no entre – saturado de meios, metades e mormaços. Vivendo não Sou, e s t i c o - m e. Vive-se para a morte, para um dia não ser, para a aspereza da finitude e a potência do quase. silêncio:
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Noite muda
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Por esta noite o tempo do nosso tempo não passa mais; mesmo o tempo daquele infenso segundo onde não somos mais, onde não temos mais. Por esta noite tudo deve ser como rascunhado, nenhuma descoberta será permitido; quero o reconhecível e o afago da lembrança-pele. Por esta noite, não me deixarei ir, não me deixarei entregue, acanhado; prefiro o terço à fórmula — mesmo quando-mudez. Ser é noite interminável
Novela da vida humana
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Não tenho problema com meus delírios, importa-me apenas que sejam de amor ou das infinitas possibilidades de controlar o tempo e de morar no instante. Não tenho dificuldades com a morte. Morro sempre com as despedidas não quistas, com os lamentos-solitários e com a força que faço para esquecer das coisas. Importo-me em não morrer de gozo ou no passado caudaloso e "ancorante". Escolher onde se morre é a única forma de liberdade-possível. Há muito tempo o Sol nasce e por muito tempo ele ainda irá nascer. Eu não. Não existia antes deste poema, tão pouco existirei por muito tempo depois das palavras secarem (e elas secarão). Somos um acumulado de memória em desgaste nada-infinito. Um esposo qualquer do prédio pulou e, ainda assim, manteve-se vivo; um outro simplesmente deixou de acordar. Uma filha fugiu do mundo e hoje ela é só-casa; uma...
O corpo que pesa é um corpo se impõe III
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Sob tua ponte ensolarada pendula o antigo corte-seco-pulso que já não é mais corte, que já não é paisagem e nem é saudade; Sob tuas águas santas, versifico a cura-seca que é só labuta, que é só canção, que não é mais visita, nem é tristeza. O chá das cinco, o café dos dias e a cerveja das noites. A doce esperança-presença me fez casa e o corpo no espelho já não é só corpo, ele é também estrada-fim. O passado anda-vive, mas o futuro abraça. O passo de dez anos é a rede na fria manhã de outono e em todas que ainda estão por nascer. Sob tuas ruas, pela primeira vez, caminho também as minhas pegadas. O cansaço-triste, a revolta-tola, o desespero-imóvel – tudo poeira retornando ao vento. O tempo-certo é sempre o certo do próprio tempo. Florescer sertão, apaziguar Francisco, respirar futuro, viver nordeste. Sou Chico, não poeta. ...
Recomeço
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In-cansavelmente continuo, é a única forma que conheço para ser quem eu sou, mesmo sem saber se estou sendo; nunca fui bom com planos , no geral, é o acaso que guia meus passos e controla meus dias, minhas noites. Amei com desespero, ajudei com culpa, acompanhei com medo, vivi na Solidão. Muito pouco fiz com o pouco que me foi dado e também muito pouco faria com muito . Gostaria de não existir quando não existisse mais; continuar é correr o risco de que a infinitude de minhas angústias sejam encontradas pelos escafandristas do verdadeiro Chico. Gostaria de poder sumir completamente logo após o fim do meu tempo; se pudesse, na verdade, iria me a pagando aos poucos, sumindo sor-ra-tei-ra-men-te d as lembranças alheias. Meu orgulho lustroso, minha vaidade acolhedora, minha despedida inesperada e a raiva carinhosa - o melhor de mim é avesso. Observo as ond...
Um corpo que pesa é um corpo que impõe - II
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: e o coração acelera, a respiração falta, o corpo treme ... e Chico repousa suas águas nos pés do outro e acalma seu corpo com o Frio, com O-frio que emana de sua impávida beleza ancestral. bem depois, na velha manhã que atravessa a também velha cortina eles acordam e no espelho o resultado das ásperas mãos de Chico sobre meu corpo frágil, do áspero beijo-encontro tolamente permitido da alma (minha antes-alma) que agora exaspera de paixão e descontrole; no espelho o resultado-idealizado de um momento que é sempre-espera. depois, bem depois dos dias, já cansado de sentir o peso do teu corpo movimentando-se sobre o meu, na segunda manhã após o tempo infinito e já sem cortinas só ele acorda só ele se veste só ele se banha só ele é espelho só ele e eu-só.
Café no fim da tarde
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I - Um recital sobre o tempo Não acredito no verso que permanece, o ver-só é tintura na mão do acaso, é o termo que reverbera transformações para longe da mente que o intuio; não acredito em nenhum tipo de permanência e sempre espero a dúvida que brota depois da última dúvida sanada. O tempo passou por mim quando eu voltava da Poesia e me disse que o texto precisava nascer, mas que eu não tivesse pressa que na pressa se morre que é preciso aparar as arestas e esperar - até quando... II - Eu só quero o Não O tempo das coisas ressoa no tempo das próprias coisas e aprumam-se em seu limite de infinitas possibilidades frente as nossas marcas infinitas e aos infinitos gozos e as dores que nunca passam (em suas noites frias e também infinitas). O verso é infenso ao tempo, sua composição telúrica seu devir-memória é o registro do que nunca foi, do que nunca vai; ele é o todo desejo deslocado, imparcia...
Réquem em Libra II
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Todo “até logo” carrega em si um bocado de adeus, nunca se sabe até quando - quando, aliás, é o limite do tempo repleto de possíveis – seu condicionante é o material telúrico da própria vida, encarnação da memória do ontem e de infinitos amanhãs. Hoje, por sua vez, é tempo sem registro – hoje é a presença sempre ausente, sempre fugidia, é a respiração que tento e não se completa por falta de ar. Ainda sim fantasio no hoje, ainda sim fantasio no hoje que sobe a montanha no hoje que queima de amor no hoje que se veste de surpresa. Logo, por outro lado, tem a duração de dois meses; logo tem o profundo tempo do “soneto do Amor total”, logo é todo tempo que escapa do quando, é o tempo palpável do infinito... Infinito, por outro lado, é o tempo sem “logo” e ou “quando” – infinito é o tempo da espera-pura. Todo “até logo” carrega em si uma vergonhosa crise fantasiada de medo do abandono, de despedida, d...
Resposta
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As coisas que passam redigem - no tempo e no espaço - o resultado da vida que não vivemos que não soubemos escolher. A cada esquina virada, a cada café sortido, a cada promessa não cumprida, apaga-se imediatamente a possibilidade de um caminho que nunca chegou a ser criado. Não, não somos apenas o resultado daquilo que foi experenciado, mas também uma porção significativa daquilo que escolhemos deixar para trás. Viver não é tecer o próprio caminho, mas aceitar o trajeto construído quando se rejeita as estradas que se abrem a cada passo dado e, por isso, todo "aprendizado" é a tese acabada de um resultado fortuito que não poderia ter sido outro que nunca poderá ser outro que só poderia ter sido outro se fôssemos outro também. Não existe beleza nas coisas que nunca foram. Nunca é signo vazio, mundanidade pura. Prefiro as infinitas possibilidades do tempo que ainda tenho ao manso regaço dos tempos de outrora e suas lem...
Uma carta sobre a Espera
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O sono que chega não me atravessa e rememorando d e d i l h o em tons de distância a voz que sempre esteve. Eras tu? O tempo da espera é apenas espera, espera que nunca chega sobre teu corpo tenro sobre tua voz serena sobre teu abraço quente sobre tua boca que... Meu desejo esposa outro passado e hoje reconheço a única paz possível. Tanto engano, será que ainda me engano? O tempo da Espera nunca chega, nunca ... Temi o corpo rejeitado frente a sua quase-beleza que nunca é quase que sempre é tanta que sempre é transbordo. In completo frases que sempre digo e que você sempre quase-não-escuta, só olha... sempre só você olha, sempre só você está. Incompleto corpo, queria outro, exijo outro – um tanto mais melódico, mais feminino, mais e s g u i o. In completo, observo a tessitura dos silêncios que te compuresam em prisão e agora destilam Liberda...
Réquiem em Libra
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I Tão pouco... tão pouco de mim ainda resta e, sem a maquiagem, nem me reconheço mais nos vincos que marcam meu rosto. Hoje é um tempo que não passa, hoje foi o ontem que você não veio... é sempre hoje no texto que declamo ou na ideia fixa que me acorda. Antes, por outro lado, nunca é um tempo melhor: antes é espaço sem vida antes é projeção antes nem é... Lembrar é um movimento que me domina, quase involuntário, discutir em análise é uma saída - se perdoar, talvez - mas nenhum destes caminhos pode ser resposta - resposta prescinde compreensão e, por mais que eu as queira, todas ela ficaram com você. Impossível, aliás, seria não ficar com você, com você. Tão pouco e todo pouco de mim ainda revivi a trilha que subi agradecido, trilha que não aprendi a desbravar e nunca mais achei o caminho. Amor cabe em si mesmo, amar não - sou refém de um substantivo. II Fomos fim antes do começo e planos antes das realizações, invertemos e, quem sab...
Do acaso
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O terço-guia, que descreio, que descremos, é o mesmo verso-acaso que se veste (se investe) e que contra nós e apesar de nós, em torno nós, agiliza o nó-encontro o nó-estrada o nó-espera o nó que desenha nas roupas e que desenha em teus mundos e que desenha o teu olhar-afago e o teu desejo-abraço. O terço-guia, que descremos, que queremos, é o mesmo verso-plano que se fez vontade, que se faz vontade, que só aumenta e nos enfrenta, nos aquece, nos espera até o raiar do dia da conversa boba do sorriso bobo dos livros divididos. O terço-guia, que queremos, que nos é amigo, é o mesmo verso-tempo, que se desdobrou, que se pendulou, que venceu o duro concreto da descrença, o duro concreto do não, que agora é todo espera do beijo-encontro da vida-sonho do repentino amor.
Da hospitalidade
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"a língua materna já é uma língua do outro" (DERRIDA, p. 79, 20021)* O corpo, tão refém das estradas e tão passeio de solidão, já não é um corpo - é para além dos espaços, dos textos dos beijos da guerra - um corpo só o é em relação infinita. Nenhuma voz. De mim ressoa apenas as histórias gravadas pelo silêncio. Eu sou quem as ouve quem as vive como este poema - que não é somente texto, mas também lembrança e futuro. Meus passos encontram outros passos, outros "Outros" e os acolho para além de mim, sem poder. Minha estrada jamais foi minha, ela é do outro e do outro que também sou pa...
O corpo poético-filosófico
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"É o corpo, portanto, que se esforça para extrair encontros do acaso e, no encadeamento das paixões tristes, organizar os bons encontros" (Deleuze, Espinosa e o problema da expressão) O beijo ancora o tenso-firme e o gosto-raro aclara a fome -pura pretéritamente-imperfeita. O terço reluz o suor-ritmo e o acaso-cor encontra o tempo -gozo pretéritamente-futuresco. O corpo registra o peso-marca e a saudade-estrada desenha a possibilidade -nós futuramente-subjunta.
Da poesia
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"Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro são indiferentes" (DRUMMOND) A gota de bílis não é poesia, mas também não é letra vazia, signo vazio, ela é texto e existe uma história por detrás e, que, por isso mesmo, espera – distraidamente – o sentido-forma-corpo-poema. O sorriso não é poesia, mas o texto que escapa dele pode ser; o c...
Das possibilidades
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Dois pontos, toda história deveria terminar assim – preparando uma espécie de anotação, de acréscimo, para o tempo que virá. Todas as coisas voltam, nada e-fe-ti-va-men-te passa. Todas as coisas perduram, como lembrança, como tristeza, como sorriso, como amparo. Baltazar retorna, talvez nunca tenha ido (ou estado?). As coisas nunca foram claras, apesar de claríssimas serem as possibilidades. Uma casa nova, um apartamento novo e a promessa de um futuro em par. O tempo que passa atravessa as cidades – aproxima quem “desaproxima”. Toda vida, sempre tempo novo. A casa nova. O mundo novo. A vida. A vida nova. A vida nova. A vida nova. O mesmo eu, a mesma solidão que se esforça na busca de viver por três, por três tempos, por três vidas. Eu um só. As coisas são como são até não serem mais. Parece óbvio, mas não é tanto. Nada é tanto, nunca é tanto, até ser. Há um limite para os planos, para as expectativas, deixar-me boiando sobre elas é ...
Engenho
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Passeio sobre teu corpo em cada sonho que tenho, mas já não sei se sonho ou se acordo. Antes, talvez o Terço tivesse feito algum efeito, mas nada te afasta ou aproxima - você permanece. Um pouco de fobia transforma convenções em pontes intransponíveis e a chave esquecida (enterrada na areia, escondida na areia, vivemos na areia, ficamos na areia) grafa a memória de um tempo não cumprido. Longe é a estrada que persigo, que atravesso poeticamente; longe demais, talvez, tenha ido minha a esperança – não me parece sanidade fotografar o amor. Aliás, como é possível não amar um amor que se sentia sem saber que já era Amor? Sofro como sofrem todos, nenhuma gota além; querer-te não é prisão - apenas sonho, apenas encanto, apenas distraio meu tempo na busca pelo amanhecer das tuas mensagens. Ontem é tempo de aprendizado, ontem sonhei com você, ontem acordei em paz e só por isso escrevo. Uma parte de mim mantém-se quieta...
Uma tese sobre a morte, uma tese sobre a vida
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I o verso não escrito o tempo que não chega o corpo que não alcanço a boca não-encontro a saudade que não destilo o espaço que não ocupo o Lembrar que não acalma o Amor que não amanheço II O verso escrito O tempo que chega O corpo que alcanço A boca-encontro a saudade que destilo o espaço que ocupo o Lembrar que acalma o Amor que amanheço
Outubro no Ouvidor
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à menininha Ruiva. De todas as formas, platonicamente, sustento a filha que nunca foi nossa, o tempo que nunca tivemos, o “sim” que nunca demos, o “olhar” que nunca trocamos. De todas as fôrmas, eroticamente, aquiesço a boca não molhada, o corpo não sentido, o gozo não encontrado, o terço não rompido. Meu maior pecado-controle, meu maior pecado-insegurança, meu maior pecado-medo, meu maior pecado-conquista. Meu maior pecado-platônico, meu maior pecado-sustento, meu maior pecado-erótico, meu maior pecado-aquiesço.
Foram as impossibilidades
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vírgulaneamente, com licença de Clarice, começo um texto e, como Lori, também com café, procuro a epifania simbólica que demarca a presença do amor: silêncio-deus; amor-deus. Ulisses se foi, Baltazar também, restou apenas o amargo vazio das impossibilidades: a vida urge. Urgimos nós: por esta ausência sem nome, por este espaço sem corpo, por este beijo sem boca, por este peso sem paixão. Nós? Baltazar se foi: a vida passa. Passaria talvez, se a vida fosse vida, mas sendo apenas dias todos são iguais e, em nenhum deles, escuto o barulho dos teus passos no corredor ao lado. Se este vazio é o “silêncio-deus” e “amor-deus”, porque lacera-me tanto? Seria o Amor, mesmo estes que começam com vírgula, um “deus-em-si” feito para ser adorado na crueza dos nossos próprios corpos? Não sei. Lóri não me responde, Ulisses retornou. Baltazar se foi... Há também um tempo para o Amor? ...
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João fala de árvores, mas Alfredo entende comunismo. Helena, por sua vez, argumenta sobre sua pesquisa e Fernando, que não entende nada do assunto, afirma que é tudo "questão de opinião". Francisco, poeta manquitolante, que se interessa pelo o "impoderável" na vida, sorri ao escutar que sua a poesia é obscura.