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Mostrando postagens de janeiro, 2022

Resposta

As coisas que passam redigem - no tempo e no espaço - o resultado da vida que não vivemos que não soubemos escolher. A cada esquina virada, a cada café sortido, a cada promessa não cumprida, apaga-se  imediatamente a possibilidade de um caminho que nunca chegou a ser criado. Não, não somos apenas o resultado daquilo que foi experenciado, mas também  uma porção significativa daquilo que escolhemos deixar para trás. Viver não é tecer o próprio caminho, mas aceitar  o trajeto construído quando se rejeita as estradas que se abrem a cada passo dado  e, por isso,  todo "aprendizado"  é  a  tese acabada de um resultado fortuito que não poderia ter sido outro que nunca poderá ser outro que só poderia ter sido outro se fôssemos outro também. Não existe beleza nas coisas que nunca foram.  Nunca é signo vazio, mundanidade pura. Prefiro  as infinitas possibilidades do tempo que ainda tenho  ao  manso regaço dos tempos de outrora e suas lem...

Uma carta sobre a Espera

O sono que chega não me atravessa e rememorando d e d i l h o em  tons  de  distância a  voz  que sempre esteve.  Eras tu?   O tempo da espera é apenas espera, espera que nunca chega sobre teu corpo tenro sobre tua voz serena sobre teu abraço quente sobre tua boca que...   Meu desejo esposa outro passado e hoje reconheço a única paz possível. Tanto engano,  será que ainda me engano? O tempo da Espera nunca chega,  nunca ...  Temi o corpo rejeitado frente a sua quase-beleza que nunca é quase que sempre é tanta que sempre é transbordo. In completo frases que sempre digo e que você sempre quase-não-escuta,  só olha...  sempre só você olha, sempre só você está.    Incompleto corpo, queria outro, exijo outro – um tanto mais melódico,  mais feminino, mais  e s g u i o. In completo,  observo a tessitura dos silêncios que te compuresam em prisão  e agora  destilam Liberda...

Réquiem em Libra

I Tão pouco... tão pouco de mim ainda resta e, sem a maquiagem, nem me reconheço mais nos vincos que marcam meu rosto. Hoje é um tempo que não passa, hoje foi o ontem que você não veio... é sempre hoje no texto que declamo ou na ideia fixa que me acorda. Antes,  por outro lado,  nunca é um tempo melhor: antes é espaço sem vida antes é projeção  antes nem é... Lembrar é um movimento que me domina, quase involuntário,  discutir em análise é uma saída - se perdoar, talvez - mas nenhum destes caminhos pode ser resposta - resposta prescinde compreensão e, por mais que eu as queira,  todas ela ficaram com você. Impossível, aliás, seria não ficar com você, com você. Tão pouco e todo pouco de mim ainda revivi a trilha que subi agradecido, trilha que  não aprendi a desbravar e nunca mais achei o caminho. Amor cabe em si mesmo, amar não - sou refém de um substantivo.   II Fomos fim antes do começo e planos antes das realizações, invertemos e,  quem sab...

Do acaso

O terço-guia, que descreio, que descremos, é o mesmo verso-acaso que se veste (se investe)  e que contra nós e apesar de nós, em torno nós,  agiliza  o nó-encontro o nó-estrada o nó-espera o nó que desenha nas roupas  e que desenha em teus mundos e que desenha o teu olhar-afago e o teu desejo-abraço. O terço-guia, que descremos, que queremos, é o mesmo verso-plano  que se fez vontade, que se faz vontade, que só aumenta  e  nos enfrenta, nos aquece, nos espera até o raiar do dia da conversa boba do sorriso bobo dos livros divididos. O terço-guia, que queremos, que nos é amigo, é o mesmo  verso-tempo, que  se desdobrou, que se pendulou,  que venceu o duro concreto da descrença, o duro concreto do não, que  agora é todo espera do beijo-encontro  da vida-sonho do repentino amor.   

Da hospitalidade

                                            "a língua materna já é uma língua do outro"                                                                    (DERRIDA, p. 79, 20021)* O corpo, tão refém das estradas e tão passeio de solidão, já não é um corpo - é para além dos espaços, dos textos dos beijos da guerra - um corpo só o é em relação infinita. Nenhuma voz.  De mim  ressoa apenas as histórias gravadas pelo silêncio. Eu sou quem as ouve quem as vive como este poema - que não é somente texto, mas também lembrança e futuro. Meus passos encontram outros passos, outros "Outros" e os acolho para além de mim, sem poder.   Minha estrada jamais foi minha, ela é do outro e do outro que também sou pa...