Faço uso das palavras por não suportar os excessos,
transbordar em
versos/prosas é meu jeito de manter a sanidade. Mas,
por outro lado,
deixando esta suposta sanidade de lado, fundamental mesmo seria conseguir ultrapassar o papel
e,
assim,
ser
capaz de utilizar as “letras e os espaços” para expressar
aquilo que não é capaz de Ser:
estátuas sem mármores,
quadros sem tintas,
música sem som,
dança sem corpo
e Amor sem objeto amado.
Enquanto isso,
me dispo esperando ser atravessado pelo toque do impossível.
Impossível? Impossível é a sentença da minha vida,
é o termo que trago
tatuado na pele e que,
por descuido,
gravou minha alma.
Impossível fora nascer,
não desenvolver uma doença neurológica, praticar esportes,
não ter problemas
na fala. Impossível,
talvez,
seria não amar
– sou, definitivamente, movido por uma força de me encontrar nos olhos
do outro.
Não raramente me pego jogando dados com a vida, apostando alto. Viver
sem “me colar” é um esforço,
perco muitas partes minhas pelo caminho.
Florescer Francisco é tão difícil
quanto viver Veríssimo, nada parece bastar.
Nada é exatamente a porção que gostaria de ter a meu respeito, talvez,
desta forma,
fosse mais fácil exercer esta Ideia de liberdade que me
acompanha.
Acredito na existência de um silêncio que seja anterior ao próprio
silêncio, uma espécie de presença impossível de ser representada
e
que,
em momentos de profunda conexão,
transborda do olhar de quem se ama.
A escrita é o reflexo da fala, a fala é o produto do pensamento, o
pensamento é aquilo que sobra do silêncio – subverter a ordem
e encontrar este silêncio primeiro é o objetivo maior que me impulsiona
enquanto escritor.
No fundo,
depois de tudo,
talvez eu só queira escrever para entender o amor que me compõe em avos de silêncio.