segunda-feira, 1 de agosto de 2022

Café no fim da tarde

I - Um recital sobre o tempo

Não acredito no verso que permanece,
o ver-só 
é tintura na mão do acaso,
é 
o termo 
que 
reverbera transformações para longe da mente que o intuio;
não acredito em nenhum tipo de permanência
sempre espero a dúvida que brota depois da última dúvida sanada. 

O tempo passou por mim quando eu voltava da Poesia
e me
disse 
que o texto precisava nascer, mas
que eu não tivesse pressa
que na pressa se morre 
que
é preciso aparar as arestas
e esperar - até quando...


II - Eu só quero o Não

O tempo das coisas ressoa no tempo das próprias coisas
e aprumam-se
em
seu limite de infinitas possibilidades frente as nossas marcas infinitas
e aos infinitos gozos
e as dores que nunca passam 
(em suas noites frias
e também infinitas).

O verso é infenso ao tempo, 
sua composição telúrica
seu devir-memória
é o registro 
do que nunca foi,
do que nunca vai; 
ele 
é o todo desejo
deslocado, 
imparcial, 
respirando entre as suas letras e os espaços.

quarta-feira, 25 de maio de 2022

Ainda até não mais

Sou 
o fruto 
ainda verde-maduro da minha exata experiência-inexperiente.
 
Sou 
o passo 
ainda trêmulo-firme da minha indivisível vida-morte.


quarta-feira, 18 de maio de 2022

Escolhas e ansiedade

O tempo d e s a c e l e r a, 
taquicardia, 
desorientação, dores pelo corpo. Respiro, respiro profundamente, não sei onde e nem aonde, não sei nada daquilo que preciso saber. 

Descubro-me corpo, descubro-me mente:

eu
Não
sou.

quinta-feira, 12 de maio de 2022

Eu sou aquilo que escapa dos poemas que escrevo.
Visto-me
de ideias que não tive,
de letras não utilizadas
histórias que não consegui contar.


sábado, 19 de março de 2022

Réquem em Libra II

Todo “até logo” carrega em si um bocado de adeus, nunca se sabe até quando - quando, 
aliás, 
é o limite do tempo repleto de possíveis – seu condicionante 
é o material telúrico da própria vida, encarnação da memória do ontem 
e de infinitos amanhãs. Hoje, 
por sua vez,
é tempo sem registro – hoje é a presença sempre ausente, sempre fugidia, é a respiração que tento e não se completa por falta de ar. Ainda sim fantasio no hoje, 
ainda sim fantasio 
no hoje que sobe a montanha
no hoje que queima de amor 
no hoje que se veste de surpresa. 
Logo,
por outro lado,
tem a duração de dois meses; logo tem o profundo tempo do “soneto do Amor total”, logo é todo tempo que escapa do quando, é o tempo palpável  do infinito... Infinito, 
por outro lado, 
é o tempo sem “logo” e
ou “quando” – infinito é o tempo da espera-pura.

Todo “até logo” carrega 
em si 
uma vergonhosa crise fantasiada de medo do abandono, de despedida,  de medo da solidão que espera por todos nós no limiar do tempo. 
Até logo, até nunca mais.

Oração canção, Rio

Rio, em tuas casas eu me aprendi abrigo e me forjei em tons do mar que abraça infinito. Rio, sobre tuas ruas desfilei-me encanto,  respirei-...