segunda-feira, 6 de maio de 2019

O bisavô escravocrata,
o avô eugenista,
o pai amava vargas
e o filho faz arminha.

O preconceito,
no Brasil,
é uma tradição familiar.

quinta-feira, 2 de maio de 2019

Distopia

A conservadora tinha amante,
o Filósofo esperança.
A Psicanalista era confusa,
o Professor depressivo.

A Aluna frívola,
o Separado carente.
A Ambientalista possessiva,
o Estudante desinteressado.

A Publicitária é passado
e
o Poeta está morto.

terça-feira, 16 de abril de 2019

Deixa quieto,
Coração.
Meu corpo é pequeno,
minha alma é serena
- deste jeito
acabo fugindo pelos poros,
transpirando 
saudade,
de tanto pensar.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Uma carta sobre o Amor

Faço uso das palavras por não suportar os excessos,
transbordar em versos/prosas é meu jeito de manter a sanidade. Mas, 
por outro lado,
deixando esta suposta sanidade de lado, fundamental mesmo seria conseguir ultrapassar o papel
e,
assim,
ser capaz de utilizar as “letras e os espaços” para expressar aquilo que não é capaz de Ser:
estátuas sem mármores,
quadros sem tintas,
música sem som,
dança sem corpo
e Amor sem objeto amado.
Enquanto isso,
me dispo esperando ser atravessado pelo toque do impossível.

Impossível? Impossível é a sentença da minha vida,
é o termo que trago tatuado na pele e que,
por descuido, 
gravou minha alma.
Impossível fora nascer,
não desenvolver uma doença neurológica, praticar esportes, 
não ter problemas na fala. Impossível,
talvez, 
seria não amar
– sou, definitivamente, movido por uma força de me encontrar nos olhos do outro.

Não raramente me pego jogando dados com a vida, apostando alto. Viver sem “me colar” é um esforço, 
perco muitas partes minhas pelo caminho. 

Florescer Francisco é tão difícil quanto viver Veríssimo, nada parece bastar. 
Nada é exatamente a porção que gostaria de ter a meu respeito, talvez,
desta forma, 
fosse mais fácil exercer esta Ideia de liberdade que me acompanha.

Acredito na existência de um silêncio que seja anterior ao próprio silêncio, uma espécie de presença impossível de ser representada
e
que,
em momentos de profunda conexão,
transborda do olhar de quem se ama.

A escrita é o reflexo da fala, a fala é o produto do pensamento, o pensamento é aquilo que sobra do silêncio – subverter a ordem
e encontrar este silêncio primeiro é o objetivo maior que me impulsiona enquanto escritor.

No fundo,
depois de tudo,
talvez eu só queira escrever para entender o amor que me compõe em avos de silêncio.  

domingo, 25 de novembro de 2018

Resistiremos

A poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais.
(Carta a Stalingrado, Drummond) 
 

O céu estrelado ainda conta os feridos da última batalha,
faz frio em Stalingrado e é sempre noite na Cidade alta
Os passos dos soldados ecoam e singram o mar,
atravessado 
recomponho-me do desespero inicial - foi apenas um pesadelo?

Maldita cruz que nunca benze, que nunca basta. Aonde estás Cordeiro 
que não te revoltas pelo uso do teu nome?
Acima de tudo és Tu? Mas,
não foste tu a ceder a outra face? 
Não foste tu
que deixas-te jorrar teu sangue para que outros não o perdessem também?

Stalingrado ainda resiste, mas
não como história, não como vergonha pavorosa do ódio humano.
Stalingrado resiste em verde e amarelo
e avança sorrateiramente em tons de azul e branco.

Os telegramas não existem mais
e, tão pouco, podem nos dizer do futuro.
Por outro lado, sobre tuas memórias, 
grande cidade,
poetas irão compor a força para esta noite que durará quatro anos
- dure quantos quatro anos durar,
resistiremos.

domingo, 4 de novembro de 2018

Do amor que resiste

Teus cachos vibram pelo vento
e a bandeira trêmula envergonhada;
a tessitura serena de tua voz
contrasta com a violência escancarada.

Teu sorriso aberto, pleno de alegria,
em resistência a liberdade cerceada;
este vestir autônomo que empunha,
enfrenta o medo desta fala controlada.

Teu olhar que em silêncio me fita,
confronta o "vazio-ruidoso" que impera;
a cor que brota de teus desenhos
se impõe ante o cinza que o futuro enverga.

Nossa história nunca acontecida
e este jeito de governo que retorna;
é força o querer que desabrocha
ante a face do ódio que desponta.


segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Teu português errado é crime,
teu corpo ineficiente pena;
teu calo nas mãos é castigo,
teu nascimento sentença.

Teu prazer é xilindró,
teu fenótipo prisão,
teu sexo é notícia,
teu gênero opinião.

Teu viver é posse.

Oração canção, Rio

Rio, em tuas casas eu me aprendi abrigo e me forjei em tons do mar que abraça infinito. Rio, sobre tuas ruas desfilei-me encanto,  respirei-...