Postagens

Mostrando postagens de 2019

Um tanto poético

Nem tanto ao céu e nem tanto ao norte; nem tanto ao corte suplantado e ao peito fraco  fundamentado - subtraído, subjugado e subalternizado. Nem tanto ao inferno e nem tanto ao Sul; nem tanto a cura impositiva e a liberdade restritiva – escancarada, alargada e amparada. Nem tanto? Tudo é tanto e eu só quero o pouco. O pouco do beijo, do gosto, do corpo pesando, de tudo que é posto e que se imposto jamais seria. Nem tanto? Nada é tanto. Não cabe a forma na fôrma que pinto, ultrapassa – transborda, desenhando novos limites. Nada é tanto. No entanto, ainda, espero encanto.

Último poema

Bate o Inverno em meu peito, há de amanhecer novamente? Não sei quando, nem sei que gente teima em amar, mas assim é feito. Tenho dó e dor, um vazio que habito ou será sou habitado? Não importa, é feito rastilho que se permeia do amor inacabado. Talvez tudo isso um dia acabe e quem sabe eu ame novamente, mas agora é a fome sua sem alarde que me hipnotiza feito belo repente. Onde está amor-inacabado? A saudade se amplia na escuridão. Já tive lembranças do seu lado, agora eu só tenho de um Não.
Caída entre o verso e a linha, respira a lágrima tardia: fome. É dor o que sinto e feito vento some. Pra onde vai? Não sei, pouco importa. Estás morta, enterrada, extinta entre os versos.

Bolero para uma alma triste

Teu corpo Macondo tua pele esperança e  este corte profundo (fantasiado de desejo): que faz sangrar a pele, que faz sangrar a alma, que me fez sangrar... Teu corpo e o toque não sentido e o bejio negado e a promessa não cumprida. Macondo desfez-se tão rapidamente, tão rapidamente quanto um telefonema quanto uma noite de sexta-feira. Tão rapidamente quanto um Adeus. E as juras? E o desejo? Era falsa toda ânsia? Não era canção a melodia tocada? Tua pele se enrosca nesta pele imaginária que sobrevive equilibrando esperança enquanto espera, a espreita... Maldita esperança, encolhida acena ao tempo, destilando brevemente a cura e a dependência deste amor que brota adoecido - quarenta centímetros da coragem.

E eles se amaram

A inspiração transvestiu-se de ousadia e quando percebi minha pena se movia na ânsia de escrever sobre o encontro de dois amantes. Refletindo, dissecando cada segundo do evento que observava, dediquei-me ao exercício de escrever apenas o fundamental: cortei o primeiro encontro dos olhares, a formação do encanto inicial, as três viradas da confirmação e os três encontros fortuitamente calculados; retirei a indisfarçável respiração ofegante do primeiro "oi", o suor frio, o nervosismo incontrolável e o embrulho no estômago; deixei o tempo correr livremente, apaguei os vincos do sorriso bobo, a alegria injustificada e a sensação de não caber dentro de si; detive-me apenas no que havia de mais essencial, naquilo que, indistintamente, representava a prática de amar; em suma, deixei no meu texto apenas o que era imprescindível. O resultado? E eles se amaram. 

Carta sobre a minha poesia

Meus poemas não são o resultado final das minhas angústias, dos meus lamentos ou das minhas alegrias  - como  discípulo de Drummomd  "não faço poesia da gota de bile". Por isso,  confio às letras apenas o impossível  - aquela parcela de vida que,  mesmo sendo vida,  jamais foi experimentada. Não sei,  precisamente,  como faço para passar todos os níveis, todas as reentrâncias, das dores que finjo sentir  - aliás,  anormalmente, raramente sinto algo. Meu texto não é a tentativa, ainda que fortuita, de uma compreensão de si - jamais assumiria este posto de "fisiologista da alma humana". Minha produção, pequena ou grande, não importa,  é o resultado daquilo que poderia ter sido - o que foi é matéria do historiador. Escrevo porque ainda há vida.
Na pretensão de poeta, juntei  letra  e sentimento, sonho  e espaço vazio - castelo de poesia. Perdi Sol, perdi-me tempo e,  no mesmo intento, deixei-me  calmaria.
Acordo.  Gullar, dois poemas – na vertigem do dia. Amanheço.
Des-afogo para além, aquém de todas as formas e de todas as fôrmas. O amar-go cura?
                     à Carlos Drummond de Andrade Joana amava Fernando que amava Joana que casou com Thiago que amava Fernando que casou com Adriano que amava Alberto que casou Vanessa que nunca amou ninguém. Francisco, que sempre amou todo mundo, preferiu viver de poesia. 
Olhos verdes  fecham, oráculos mentem, cordões arrebentam, e amores passam. É hora de seguir.
O bisavô escravocrata, o avô eugenista, o pai amava vargas e o filho faz arminha. O preconceito, no Brasil, é uma tradição familiar.

Distopia

A conservadora tinha amante, o Filósofo esperança. A Psicanalista era confusa, o Professor depressivo. A Aluna frívola, o Separado carente. A Ambientalista possessiva, o Estudante desinteressado. A Publicitária é passado e o Poeta está morto.
Deixa quieto, Coração. Meu corpo é pequeno, minha alma é serena - deste jeito acabo fugindo pelos poros, transpirando  saudade, de tanto pensar.