Postagens

Mostrando postagens de 2018

Uma carta sobre o Amor

Faço uso das palavras por não suportar os excessos, transbordar em versos/prosas é meu jeito de manter a sanidade. Mas,  por outro lado, deixando esta suposta sanidade de lado, fundamental mesmo seria conseguir ultrapassar o papel e, assim, ser capaz de utilizar as “letras e os espaços” para expressar aquilo que não é capaz de Ser: estátuas sem mármores, quadros sem tintas, música sem som, dança sem corpo e Amor sem objeto amado. Enquanto isso, me dispo  esperando ser atravessado pelo toque do impossível. Impossível? Impossível é a sentença da minha vida, é o termo que trago tatuado na pele e que, por descuido,  gravou minha alma. Impossível fora nascer, não desenvolver uma doença neurológica, praticar esportes,  não ter problemas na fala. Impossível, talvez,  seria não amar – sou, definitivamente, movido por uma força de me encontrar nos olhos do outro. Não raramente me pego jogando dados com a vida, apostando alto. Vive...

Resistiremos

A poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais. (Carta a Stalingrado, Drummond)    O céu estrelado ainda conta os feridos da última batalha, faz frio em Stalingrado e é sempre noite na Cidade alta .  Os passos dos soldados ecoam e singram o mar, atravessado  recomponho-me do desespero inicial - foi apenas um pesadelo? Maldita cruz que nunca benze, que nunca basta. Aonde estás Cordeiro  que não te revoltas pelo uso do teu nome? Acima de tudo és Tu? Mas, não foste tu a ceder a outra face?  Não foste tu que deixas-te jorrar teu sangue para que outros não o perdessem também? Stalingrado ainda resiste, mas não como história, não como vergonha pavorosa do ódio humano. Stalingrado resiste em verde e amarelo e avança sorrateiramente em tons de azul e branco. Os telegramas não existem mais e, tão pouco, podem nos dizer do futuro. Por outro lado, sobre tuas memórias,  grande cidade, poetas irão compor a força para esta noite que du...

Do amor que resiste

Teus cachos vibram pelo vento e a bandeira trêmula envergonhada; a tessitura serena de tua voz contrasta com a violência escancarada. Teu sorriso aberto, pleno de alegria, em resistência a liberdade cerceada; este vestir autônomo que empunha, enfrenta o medo desta fala controlada. Teu olhar que em silêncio me fita, confronta o "vazio-ruidoso" que impera; a cor que brota de teus desenhos se impõe ante o cinza que o futuro enverga. Nossa história nunca acontecida e este jeito de governo que retorna; é força o querer que desabrocha ante a face do ódio que desponta.
Teu português errado é crime, teu corpo ineficiente pena; teu calo nas mãos é castigo, teu nascimento sentença. Teu prazer é xilindró, teu fenótipo prisão, teu sexo é notícia, teu gênero opinião. Teu viver é posse.

A parte que falta

Meu corpo, sobre seu corpo, pesa à esquerda e  teu corpo, sobre o meu,                                             desliza para direita. Troco meu Caetano por Gonzaguinha (vamos à luta), enquanto você toma seu Bourboun e cantarola “certas coisas”.  Certas coisas sobre você me deixam inquieto: Seu drama, sua pose de dama e este jeito que é Chama em cada gesto.  Eu vento, espalhando por todos os lados, querendo ser brisa. Brisa e vento, dama e chama... Sua voz grave invade meus ouvidos e dança, mas eu não. Faço pose e tomo meu café enquanto espero sua decisão - não se engane, toda espera é um sintoma de fraqueza. Eu hoje e você amanhã. Aliás, teremos amanhã? Todo amanhã deveria ser terça-feira. Treze anos? Sete anos? A vida não cabe no tempo e nossa estrada é infinita em cada beijo. Até você eu fui estrada, hoje sou casa: Chão de Tal...

Um tempo para a alma triste

ao Amigo Marcos Tristão Despede-se da batalha a alma combativa, mergulha no espaço e nas profundezas causticantes do pensamento e em silêncio, organiza cepas de conceitos e costura (para os que ficam) um futuro arrebatamento - este instante que se destaca do tempo. Então, hoje foste tu velho amigo - como também foi a grande alma da Índia que nos uniu em um café. Tua filosofia ainda reside e não morre, não morrerá – o pensamento maldito sempre fica, se escondendo pelos cantos e encantos, feito voz que nunca cessa. Tua sandália de couro é memória, mas é também resistência, é também referência para aqueles que não desistem - apesar do cansaço destes dias de chumbo.

Um encontro com Lou

O último som de barca atravessa em direção ao rio de janeiro, faz frio em Niterói e pouquíssimas pessoas andavam pelas ruas, menos ainda como nós – sem pressa, perspectiva ou querendo chegar. Era, talvez, a certeza de que aquela noite seria única. Algumas prédicas dão certo, enquanto outras:  se encerram numa noite cinza, numa voz cinza, com roupas cinzas, num quarto com ventilador quebrado.   Não sei exatamente quanto tempo durou nosso trajeto, minutos talvez, mas o restante daquela noite e, principalmente, a forma como me acolheu, ainda ressoa por dentro . Sabe, voltar no tempo não é uma possibilidade, mas já pensei (algumas vezes) que Deus poderia ser meu filho, é tão triste pensar nisso - você sabe do meu afeto por crianças. Ainda ouço a chuva cair no Toldo, por isso nunca quis colocá-lo em nenhuma das minhas casas. Se me concentrar, sem exageros, ainda consigo ouvir o teu “canalha”, ainda, depois de tanto tempo. Sinto que eu de...

Clarice e o mundo que deveria ter sido

O mundo jamais dever-ia. É angústia demais, é peso demais,  ser sem poder Ser. 

Poema póstumo

Morri, sem nenhuma preparação, num belo alvorecer. Não havia mais ontem e nem amanhã, apenas a pena do eterno presente. Devia ter dançado aquela última canção.