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O corpo poético-filosófico

"É o corpo, portanto, que se esforça para extrair encontros do acaso e, no encadeamento das paixões tristes, organizar os bons encontros" (Deleuze, Espinosa e o problema da expressão) O beijo ancora o tenso-firme  e o gosto-raro  aclara a fome -pura pretéritamente-imperfeita.  O  terço reluz o suor-ritmo e o acaso-cor encontra o tempo -gozo pretéritamente-futuresco.  O corpo registra o peso-marca  e a saudade-estrada desenha a possibilidade -nós futuramente-subjunta.   

Poema falso

Quero sentir o nós no teu corpo,  sentir o nós no teu gosto, o nós no teu quadril, nós no teu nós, no teu Eu, teu gozo, você.

Diálogo

"É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio"                                                                              (DRUMMOND) Uma flor, solitária flor,  ultrapassa o asfalto e o tédio dos arranha-céus,  cotidiano.   Uma flor, solitária flor,  ultrapassa o peito e o eu-concreto do mundo-concreto, Poesia.

Da poesia

                                                         "Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro                                                            são indiferentes"                                                            (DRUMMOND) A gota de bílis não é poesia, mas também  não é letra vazia, signo vazio,  ela é texto e  existe uma história por detrás e, que, por isso mesmo,   espera – distraidamente – o sentido-forma-corpo-poema.  O sorriso não é poesia, mas o texto que escapa dele pode ser; o c...

Das possibilidades

Dois pontos, toda história deveria terminar assim – preparando uma espécie de anotação, de acréscimo, para o tempo que virá. Todas as coisas voltam, nada e-fe-ti-va-men-te  passa. Todas as coisas perduram, como lembrança, como tristeza, como sorriso, como amparo. Baltazar retorna, talvez nunca tenha ido (ou estado?). As coisas nunca foram claras, apesar de claríssimas serem as possibilidades. Uma casa nova, um apartamento novo e a promessa de um futuro em par.     O tempo que passa atravessa as cidades – aproxima quem “desaproxima”. Toda vida, sempre tempo novo.   A casa nova. O mundo novo. A vida.  A vida nova. A vida nova. A vida nova. O mesmo eu, a mesma solidão que se esforça na busca de viver por três,  por três tempos, por três vidas. Eu um só.   As coisas são como são até não serem mais. Parece óbvio, mas não é tanto. Nada é tanto, nunca é tanto, até ser. Há um limite para os planos, para as expectativas, deixar-me boiando sobre elas é ...

Poeminha da Alteridade

Eu, se não nascesse Eu, nasceria  Outro; seria radicalmente outro-eu,   sem nenhuma semelhança. Então,  como posso  condenar um Eu   que poderia ser o meu,  se nasce Eu ao invés de outro-eu,  por ser exatamente o Eu que ele é? 

Engenho

Passeio sobre teu corpo em cada sonho que tenho, mas já não sei se sonho ou se acordo. Antes, talvez  o Terço tivesse feito algum efeito, mas nada te afasta ou aproxima - você permanece.   Um pouco de fobia transforma convenções em pontes intransponíveis e a chave esquecida (enterrada na areia,  escondida na areia, vivemos na areia, ficamos na areia) grafa  a memória de um tempo não cumprido. Longe é a estrada que persigo, que atravesso poeticamente;  longe demais, talvez, tenha ido minha a esperança – não me parece sanidade fotografar o amor. Aliás,  como é possível não amar um amor que se sentia sem saber que já era Amor? Sofro como sofrem todos, nenhuma gota além;  querer-te  não é prisão - apenas sonho,  apenas encanto, apenas distraio meu tempo na busca pelo amanhecer das tuas mensagens. Ontem é tempo de aprendizado, ontem sonhei com você, ontem acordei em paz  e só por isso escrevo.  Uma parte de mim mantém-se quieta...

Uma tese sobre a morte, uma tese sobre a vida

I o verso não escrito o tempo que não chega o corpo que não alcanço  a boca não-encontro   a saudade que não destilo  o espaço que não ocupo o Lembrar que não acalma  o Amor que não amanheço   II O verso escrito O tempo que chega O corpo que alcanço A boca-encontro   a saudade que destilo  o espaço que ocupo o Lembrar que acalma  o Amor que amanheço

Poema de despedida

Entre tuas mãos aconchego; entre   tuas coxas casa e teus braços fogo - eu ficaria se você pedisse.  Entre os futuros da estrada; entre o olhar dos filhos e do encanto música - eu ficaria se você pedisse. No sorriso benção, no silêncio medo.
“Um pouco de possível, senão eu sufoco” (Deleuze) Um pouco deste canto grito, deste verso estrada, desta mão-revolta, desta mente-assombro, deste sangue-cais.   Um pouco deste canto imenso, deste verso Casa, desta mão sossego, desta mente pura, deste sangue-mar.

O poeta e a Cura

Confesso verso faca alívio, verso-terço-puro, que retina tempo espelha.   Confesso gosto gozo infindo, gosto-corpo-culpa, que pecado santo arvora.   Confesso cura presa angústia, cura-serra-sonha, que temporal brisa encontra.

Outubro no Ouvidor

                                               à menininha Ruiva. De todas as formas, platonicamente, sustento a filha que nunca foi nossa, o tempo que nunca tivemos, o “sim” que nunca demos, o “olhar” que nunca trocamos. De todas as fôrmas, eroticamente, aquiesço a boca não molhada, o corpo não sentido, o gozo não encontrado, o terço não rompido. Meu maior pecado-controle, meu maior pecado-insegurança, meu maior pecado-medo, meu maior pecado-conquista. Meu maior pecado-platônico, meu maior pecado-sustento, meu maior pecado-erótico, meu maior pecado-aquiesço. 

Foram as impossibilidades

vírgulaneamente,  com licença de Clarice, começo um texto e, como Lori, também com café, procuro a epifania simbólica que demarca a presença do amor: silêncio-deus; amor-deus.   Ulisses se foi, Baltazar também, restou apenas o amargo vazio das impossibilidades: a vida urge.   Urgimos nós: por esta ausência sem nome, por este espaço sem corpo, por este beijo sem boca, por este peso sem paixão. Nós? Baltazar se foi: a vida passa.   Passaria talvez, se a vida fosse vida, mas sendo apenas dias todos são iguais e, em nenhum deles, escuto o barulho dos teus passos no corredor ao lado.   Se este vazio é o “silêncio-deus” e “amor-deus”, porque lacera-me tanto?   Seria o Amor, mesmo estes que começam com vírgula, um “deus-em-si” feito para ser adorado na crueza dos nossos próprios corpos?   Não sei. Lóri não me responde, Ulisses retornou. Baltazar se foi... Há também um tempo para o Amor?      ...